homem me dá medo.
Mindinho sorriu.
- Deixe Lorde Varys comigo, querida senhora. Se me
permitir uma pequena obscenidade. E que lugar
melhor para uma que este? Tenho os bagos do
homem na palma da mão - mostrou os dedos em taça,
sorrindo. - Ou os teria, caso ele fosse um homem e
tivesse bagos. Compreenda que, se destaparmos a
gaiola, os pássaros começarão a cantar, e ele não
gostaria de tal coisa. Em seu lugar, me preocuparia
mais com os Lannister e menos com o eunuco.
Ned não precisava que Mindinho lhe dissesse aquilo.
Recordava o dia em que Arya fora encontrada, o
olhar no rosto da rainha quando dissera: Nós temos
um lobo, tão suave e calma. Pensava no rapaz Mycah,
na morte súbita de Jon Arryn, na queda de Bran, no
velho e louco Aerys Targaryen a morrer no chão de
sua sala do trono, enquanto o sangue de sua vida
secava numa lâmina dourada.
- Minha senhora - disse, virando-se para Catelyn -,
nada mais pode fazer aqui. Desejo que regresse a
Winterfell imediatamente. Se houve um assassino,
poderá haver outros. Quem quer que tenha ordenado
a morte de Bran saberá em breve que o rapaz ainda
vive.
- Eu tinha esperança de ver as meninas... - disse
Catelyn.
- Isso seria muito insensato - interveio Mindinho. - A
Fortaleza Vermelha está cheia de olhos curiosos, e as
crianças falam.
- Ele fala a verdade, meu amor - disse-lhe Ned,
abraçando-a. - Leve Sor Rodrik e corra para
Winterfell. Eu vigiarei as meninas. Vá para casa,
para junto de nossos filhos, e mantenha-os a salvo.
- Como quiser, senhor - Catelyn ergueu o rosto, e Ned
a beijou. Os dedos estropiados dela apertaram as
costas dele com uma força desesperada, como que
para mantê-lo para sempre a salvo no abrigo de seus
braços.
- O senhor e a senhora vão querer um quarto? -
perguntou Mindinho. - Devo preveni-lo, Stark, de
que por aqui geralmente cobramos por esse tipo de
coisa.
- Um momento a sós, é tudo o que peço - Catelyn
pediu.
- Muito bem - Mindinho seguiu na direção da porta. -
Sejam breves. Já passa da hora em que a Mão e eu
deveríamos estar de volta ao castelo para que nossa
ausência não seja notada.
Catelyn foi até junto dele e tomou-lhe as mãos nas
suas.
- Não me esquecerei da sua ajuda, Petyr. Quando
seus homens vieram me chamar, não sabia se me
levavam até um amigo ou um inimigo. Encontrei em
você mais que um amigo. Encontrei o irmão que
julgava perdido.
Petyr Baelish sorriu.
- Sou desesperadamente sentimental, querida
senhora. E melhor não contar a ninguém. Passei
anos convencendo a corte de que sou malvado e
cruel, e detestaria ver todo esse árduo trabalho dar
em nada.
Ned não acreditou numa palavra daquilo, mas
manteve a voz delicada para dizer:
- Tem também os meus agradecimentos, Lorde
Baelish.
- Ora, aí está um tesouro - disse Mindinho, saindo do
quarto.
Depois de a porta se fechar, Ned virou-se para a
mulher.
- Quando chegar em casa, mande uma mensagem a
Heiman Tallhart e Galbart Glover com o meu selo.
Eles devem recrutar cem arqueiros cada um e
fortificar o Fosso Cailin. Duzentos arqueiros
determinados podem defender a Garganta contra um
exército. Diga a Lorde Manderly que deve fortalecer
e reparar todas as suas defesas no Porto Branco e
assegurar-se de que elas estão bem guarnecidas de
homens. E a partir deste momento quero que uma
vigilância cuidadosa seja mantida sobre Theon
Greyjoy. Se houver guerra, teremos grande
necessidade da frota de seu pai.
- Guerra? - o medo era claro no rosto de Catelyn.
- Não chegará a tal ponto - prometeu-lhe Ned,
rezando para que fosse verdade, e voltou a tomá-la
nos braços. - Os Lannister não têm misericórdia
perante a fraqueza, como Aerys Targaryen aprendeu
para sua desgraça, mas não se atreverão a atacar o
Norte sem estarem sustentados por todo o poder do
reino, e não o terão. Devo representar este embuste
como se nada houvesse de errado. Recorde o que me
trouxe aqui, meu amor. Se encontrar provas de que
os Lannister assassinaramJon Arryn...
Sentiu Catelyn tremer em seus braços. Suas mãos
marcadas o agarraram.
- Se isso acontecer - disse -, que acontecerá, meu
amor?
Ned sabia que essa era a parte mais perigosa.
- Toda a justiça parte do rei - disse-lhe. - Quando eu
souber a verdade, terei de ir ter com Robert - e rezar
para que seja o homem que penso que é, concluiu em
silêncio, e não o homem em que temo que se tenha
transformado.

Tyrion

- Está certo de que é preciso ir tão cedo? -
perguntou-lhe o Senhor Comandante.
- Mais que certo, Lorde Mormont - respondeu Tyrion.
- Meu irmão Jaime deve querer saber o que me
aconteceu. Pode pensar que me convenceu a vestir
negro.
- Bem gostaria de fazê-lo. - Mormont pegou uma
pinça de caranguejo e a rachou com a mão. Apesar
de velho, o Senhor Comandante ainda possuía a
força de um urso. - E um homem astuto, Tyrion.
Homens assim fazem falta na Muralha.
Tyrion sorriu.
- Então percorrerei os Sete Reinos em busca de
anões e os enviarei para cá, Lorde Mormont -
enquanto os outros riam, ele sugou a carne de uma
perna de caranguejo e apanhou outra. Os
caranguejos tinham chegado de 